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TEATRO DE ANIMAÇÃO

Na década de 70 começaram a surgir, no ocidente (na Europa e nos E.U.A), alguns grupos de Teatro de Bonecos que, pretendendo libertar-se dos tradicionais conceitos estéticos, decidem renovar os padrões da Cena contemporânea...
Desta vontade de mudança nasce o TEATRO DE ANIMAÇÃO.

O TEATRO DE ANIMAÇÃO é um género teatral que inclui Actores, Formas, Bonecos, Máscaras, Objectos, Adereços e equipamentos diversos representando seres vivos ou ideias abstractas.

O TEATRO DE ANIMAÇÃO distancia-se do Teatro Declamado pela importância que dá ao movimento, à cor, à fantasia e à abstracção, em detrimento do texto.

Por se tratar de um género teatral relativamente recente (na História do Teatro), embora com a aspiração de atingir a abstracção do simbólico e do metafísico, dos ancestrais rituais miméticos, ainda procuramos parâmetros que o definam e situem no actual universo do Teatro.

O TEATRO DE ANIMAÇÃO é, essencialmente, um Espectáculo no qual o foco de atenção recai não no Actor mas nas formas, nos objectos e nas representações de ideias abstractas.

De certa forma podemos considerar que o TEATRO DE ANIMAÇÃO é o “reverso” do Teatro Declamado uma vez que, enquanto um valoriza as formas, os movimentos, as cores e as ideias abstractas o outro valoriza o texto e os Actores, usando as formas como meros adereços.

O TEATRO DE ANIMAÇÃO é um Espectáculo de manipulação de Objectos, de Bonecos e/ou Formas Animadas; Nestes termos, também o Teatro de Bonecos e o Teatro de Objectos poderão ser incluídos naquela designação genérica.

Podemos também considerar que o TEATRO DE ANIMAÇÃO pode ser uma estilização do Teatro de Objectos que, por sua vez, terá sido uma evolução do Teatro de Bonecos...

Independentemente das nomenclaturas e dos estilos existe uma diferença fundamental entre o TEATRO DE ANIMACAO e o Teatro Declamado que é a forma como o Personagem é assumido.

No Teatro Declamado o Actor confunde a sua imagem com a do Personagem, porque são ambas uma única...
Neste caso o Actor, ao encarnar o Personagem, empresta-lhe a sua própria imagem mas, porque conserva sempre a memória de si, acaba, na maioria dos casos, por trair o próprio Personagem uma vez que ele não é o Personagem.

No TEATRO DE ANIMAÇÃO, porque o Personagem é distinto do Actor, não existe a possibilidade de confundir as identidades.
Neste caso o Personagem tem uma forma física e características próprias, e o Actor, ao manipulá-lo, e ao dar-lhe vida e energia, identifica-se com as suas características mas mantêm-se sempre distinto dele.

Mesmo que o Actor esteja visível em Cena, deve anular-se completamente e surgir ao espectador como uma imagem neutra.

Apesar de ser a energia do Manipulador que confere vida e movimento aos personagens/objectos são estes que, em ultima análise, devem conduzir a acção sendo para isso necessário que o Actor se identifique com a "personalidade" da forma animada, deixando-se guiar pela energia que dela emana.

Mas se um Boneco, um Objecto ou uma Forma Animada são inertes (sem vida) e se a única energia de que dispõem é a do próprio Actor, então este tem de ser capaz de emprestar a sua energia ao objecto e, de seguida, captar essa mesma energia (depois de filtrada pela sua textura, forma e "personalidade") para o manipular de acordo com a sua "vontade"...

Esta energia será conferida aos objectos, e condensada ao longo dos ensaios, a partir do momento em que se crie uma empatia entre o Manipulador e a Forma, entre o Actor e o Personagem

Este processo metafísico e alquímico de transferência/transposição de energia pode ser utilizado em qualquer género de Teatro embora possa tornar-se prejudicial para um Actor que não saiba como libertar-se dessa "carga energética dos personagens” após cada representação.

A "identificação" com os Personagens tem de ser consciente, e estar sempre sob o controlo da mente, para que o Actor não perca a sua identidade e venha a transformar-se como que numa "manta de retalhos" de todos os personagens que encarnou...

Caso o Actor utilize uma Máscara proceder-se-á do mesmo modo que em relação a Bonecos ou Objectos pois, nesse caso, sendo aquela que identifica o Personagem, será ela mesma que será energizada...

Estas transferências energéticas eram usuais na Antiguidade e continuam a ser comuns nos nossos dias, embora disso não nos demos conta.
No passado, imagens de deuses, símbolos, totems e ídolos eram energizados para acumularem "força/energia" que, posteriormente, seria utilizada para fins diversos.

Hoje em dia, embora de forma inconsciente, os povos continuam a energizar objectos (e lugares) ao adorarem e dirigirem preces a figuras e estátuas de santos...
A atitude cientifica perdeu-se tendo restado apenas um nublado saber empírico que é utilizado, com mais ou menos sucesso, dependendo da empatia e da comoção desenvolvida pelo utilizador...

Através do TEATRO DE ANIMACAO pretende-se sempre, ainda que inconscientemente na grande maioria dos casos, alcançar este processo alquímico de transposição da força arquetipal dos Personagens para os objectos.
Por inerência deste distanciamento entre Actor e Personagem, o TEATRO DE ANIMAÇÃO estará, assim, mais próximo da "magia" das representações primevas, que qualquer outro género teatral.

Se em Magia, utilizador e manipulador (Mago) são designações diferentes para entidades de categorias distintas, uma vez que o primeiro apenas utiliza a energia que é colocada ao seu dispor (desconhecendo todo o processo científico que está por detrás), enquanto que o segundo manipula as próprias forças geradoras dessa energia, em TEATRO DE ANIMAÇÃO essa distinção depende do tipo de utilização que se dá ao objecto.

Vejamos:
- Quando, por exemplo, um carpinteiro se serve de um martelo, utiliza-o, decerto, como ferramenta...
- Mas quando um Animador, em Cena, utiliza o mesmo martelo como personagem de uma acção dramática, manipula-o, como se de um ser vivo se tratasse, e confere-lhe características anímicas que estão muito para além da sua função enquanto ferramenta.

O TEATRO DE ANIMAÇÃO transporta-nos para o Mundo Onírico da nossa infância, pois com ou sem mecanismos sofisticados, usando Máscaras, Objectos ou Formas Animadas, através de fios ou de varas, de "chips", ou de circuitos electrónicos, ou ainda através da simples manipulação da mão nua do Actor, tudo ganha vida, e até o objecto mais inerte, e mais comum se pode transformar num Rei, numa Princesa, num ser Mítico, num Monstro, num Guerreiro, ou num Animal de Estimação.

Em Teatro o tempo e o espaço têm extensões completamente diferentes da realidade... Assim, um minuto pode demorar uma hora, e um ano pode reduzir-se a um simples minuto.

O Teatro é ficção e tudo nele é virtual uma vez que, nesta Arte, tudo o que parece, é!

Em Teatro nada é real, porque o Teatro é a Arte do "faz de conta", e mesmo o que possa parecer verdadeiro é, na maioria dos casos, falso ou maquinado.

No TEATRO DE ANIMACAO este princípio do "faz de conta” é levado ao limite do imaginário, pois tudo pode ser falso sendo que, muitas vezes, até os próprios personagens são virtuais dependendo exclusivamente da imaginação de quem os manipula e até de quem os vê.